Temporada Com Menos Ciclones, Mas os Mesmos Riscos Estruturais
A previsão para a temporada ciclónica 2023-2024, que agora começa, aponta para “uma mudança drástica em relação aos últimos três anos”, com uma probabilidade menor de ciclones devastadores chegarem a Moçambique. Mas as autoridades alertam: basta um para causar grande destruição, pelo que o País não pode baixar a guarda. Prevenção e resiliência continuam a ser sempre palavras de ordem. Estamos preparados?
Escrita Por: Administração |
Publicado: 2 years ago |
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Categoria: Economia
O centro meteorológico francês da Ilha da Reunião, uma das autoridades de previsão e acompanhamento de ciclones no oceano Índico, antevê uma temporada de ciclones 2023-2024 caracterizada por actividade abaixo do normal em toda a bacia de ciclones do sudoeste do oceano Índico. Esta bacia estende-se desde as costas do Bangladesh e da ilha de Sumatra – a maior ilha inteiramente pertencente à Indonésia – até à costa de Moçambique. São cerca de 7400 quilómetros. Por norma, os ciclones do Índico formam-se naquelas paragens a oriente e dirigem-se para o ocidente, estando Madagáscar e Moçambique entre as zonas de impacto natural. Isto faz parte da natureza, não é consequência das alterações climáticas. Aquilo que tem mudado (para pior) é a frequência, cada vez maior, com que ciclones devastadores se formam e rasgam territórios povoados.
a d v e r t i s e m e n t
Mas a temporada que agora começa chega com probabilidades atenuadas em relação aos últimos anos. A ver vamos. A previsão da Meteo France estima que haja entre cinco a oito sistemas (tempestades e ciclones), com dois a quatro deles a poderem atingir o estado de ciclone tropical, o mais grave. Espera-se uma actividade ciclónica muito reduzida na primeira parte da temporada, ou seja, o primeiro sistema depressionário deverá aparecer tarde. Depois, a partir de meados de Janeiro, espera-se uma actividade um pouco mais sustentada a norte e nordeste das Ilhas Mascarenhas, com fenómenos ciclónicos a deslocarem-se principalmente para sul ou sudeste.
Ou seja, em vez de atravessarem o Índico numa longa viagem para oeste, as tempestades da nova temporada deverão ter tendência para “mergulhar” logo para sul, deixando as costas de Madagáscar e Moçambique mais sossegadas – prevê-se um risco de impacto reduzido. “Estimamos que haja uma probabilidade de 70% de a actividade ciclónica da temporada ficar abaixo do normal”, prevê a Meteo France, a partir do centro de observação da Ilha da Reunião. Há apenas 10% de probabilidade que haja mais depressões atmosféricas que o normal.
Aquilo que tem mudado (para pior) é a frequência, cada vez maior, com que ciclones devastadores se formam e rasgam territórios povoados
Um contexto diferente dos últimos três anos
O contexto geral é de “uma mudança drástica em relação aos últimos três anos”, refere a previsão sazonal do centro meteorológico francês. Isto deve-se à influência, à escala global, “de um forte episódio de El Niño, combinado, a nível regional e na primeira parte da temporada, com uma fase positiva do Dipolo do oceano Índico”. O que são estes fenómenos?
Vamos recuar um pouco. A nível global, o episódio do fenómeno atmosférico La Niña, no oceano Pacífico equatorial, começou no final de 2020. Permaneceu activo e depois desapareceu, em Março deste ano. Nessa altura, as condições de temperatura no Pacífico, em combinação com a circulação de ar, alteraram-se. E, quando assim acontece, surge o El Niño, que está em actividade há nove meses. “As águas do Pacífico equatorial oriental estão actualmente muito mais quentes do que o normal”, e quando esta “anomalia oceânica” acontece tem reflexos “na circulação atmosférica e oceânica global, particularmente em regiões tropicais”, resume o centro meteorológico francês.
Em que ponto estamos? Espera-se que o actual El Niño atinja o pico nas próximas semanas (entre Dezembro e Janeiro), antes de diminuir lentamente. “Este é potencialmente um episódio de alta amplitude, comparável aos eventos de 2015-2016, 1997-1998 ou 1982-1983. Espera-se que a sua influência nas circulações oceânicas e atmosféricas continue durante todo o Verão austral”.
O Instituto Nacional de Gestão de Desastres anunciou um défice de mais de dez milhões de meticais para fazer face à época chuvosa e ciclónica 2023-2024, o que quer dizer que ainda não estamos preparados enfrentar a situação
Falta perceber o outro mecanismo desta gigante engrenagem ciclónica. A nível regional, está em curso aquilo que é designado pelos meteorologistas como “fase positiva” do Dipolo do oceano Índico. A palavra “dipolo” refere-se a duas áreas do mar com temperaturas opostas, de um lado, as águas junto à costa oriental africana e, do outro, o mar da costa oeste da Indonésia. São os dois extremos do Índico. Quando a temperatura está acima da média no Índico oeste (costa africana) e abaixo da média no Índico leste (Indonésia), temos uma fase positiva do dipolo. Quando as condições são as opostas, temos uma fase negativa.
Decorre desde Agosto – e terá já atingido a intensidade máxima em Novembro – uma fase positiva. “Uma fase negativa do Dipolo Subtropical do oceano Índico pode assumir o controlo no início de 2024, mas, por enquanto, a sua magnitude é bastante incerta”, nota a previsão da Meteo France.
Seja como for, a paisagem atmosférica e oceânica prevista e que se começa a instalar para o Verão austral 2023-2024, “é diametralmente oposta à do ano passado”. Isto quer dizer que Moçambique pode baixar a guarda? Não. Nem Moçambique, nem nenhum país da bacia do Índico.
É necessário implementar as precauções habituais no início da temporada de ciclones. Pode ser um alívio saber que as probabilidades de haver ciclones fortes são mais baixas, mas, “para um determinado local, basta um sistema depressionário para provocar um impacto que pode ser catastrófico”, conclui a Meteo France.
Os riscos a ter em conta, segundo o INAM
Uma explicação similar à da Meteo France foi dada à E&M pelo director-geral do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), Adérito Aramuge, mas com algumas particularidades, que têm em conta a experiência de ocorrência de fenómenos extremos no País. Até final do ano, o INAM prevê chuva a níveis dentro da média para Cabo Delgado, Niassa, Nampula, distritos a norte da Zambézia e na faixa costeira desta província. A precipitação poderá ficar abaixo do normal nas províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Manica, Sofala, Tete e parte da Zambézia. Só no período de Janeiro a Março deverá haver chuva acima do normal nas províncias de Niassa, Nampula, Zambézia e grande parte das províncias de Cabo Delgado e Tete.
As consequências do El Nino deverão ditar falta de chuvas em várias extensões de África. O Instituto Nacional de Meteorologia prevê que a seca venha a afectar, principalmente, o Centro e Sul do País
Apesar de a época ciclónica se afigurar mais calma, o INAM alerta para o risco sazonal da ocorrência de cheias no primeiro trimestre de 2024. Analisando a situação hidrológica e tendo em conta a permanência de população em zonas de cheia (aquelas que são o leito natural dos cursos de água na época das chuvas), Adérito Aramuge indica que mais de 800 mil pessoas podem ser afectadas por inundações. Face aos riscos prevalecentes, recomenda medidas de precaução. A população, por exemplo, deve evitar a travessia de rios, manter os seus bens e equipamentos em locais seguros, bem como fazer o acompanhamento da informação emitida através dos boletins e comunicados hidrológicos. Às administrações regionais de água, à Electricidade de Moçambique (EDM) e à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), recomenda-se a observância rigorosa das medidas de exploração das albufeiras, face às previsões.
Prevenir a actividade logística: um quebra-cabeças
Estima-se que cerca de 70% das estradas em Moçambique sejam terraplanadas, sendo que grande parte das restantes carece de manutenção. Muitas das vias passam junto a rios e atravessam zonas de cheias, tornando-as vulneráveis ao mínimo sinal de cheias – que em muitos locais são certas, dada a confluência das escorrências. Assim, para quem faz vida (e negócios) através das estradas, o INAM recomenda a “programação antecipada das deslocações”, tanto no que respeita ao transporte de passageiros, como na circulação de mercadorias, através de veículos pesados. Mesmo que haja planificação e redundância, o INAM recomenda o aprovisionamento antecipado de carregamentos, assegurando que o transporte seja feito em períodos de bom tempo, privilegiando camiões de baixa tonelagem. Há mais de 800 pontes no País, sendo a manutenção das vias reconhecidamente débil, pelo que facilmente se podem tornar no elo mais fraco de qualquer cadeia logística.
Falta dinheiro para responder aos eventos extremos
O Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) anunciou recentemente um défice de de mais de dez mil milhões de meticais para fazer face à época chuvosa e ciclónica 2023-2024, o que quer dizer que ainda não estamos preparados para enfrentar a situação. De acordo com a presidente do INGD, Luísa Meque, há 4,3 mil milhões de meticais disponíveis e o trabalho de mobilização de recursos continua, junto do Governo e de parceiros, para tentar suprir o défice. O financiamento das actividades de recuperação e construção está entre os mais afectados. Contas feitas, Luísa Meque indica que o INGD assistiu, na época passada (2022-2023), cerca de 712 644 pessoas das 1 356 671 afectadas pelo ciclone Freddy – o mais grave da última temporada -, com bens alimentares e não alimentares.
Além dos ciclones, partes do sul de Moçambique estão a ser afetados por longos períodos de seca, cujos indicadores voltam a surgir nas previsões dos próximos meses – em paralelo com zonas que estão no mapa de risco de cheias. A mistura de previsões contrárias chega a parecer paradoxal, mas a extensão do território moçambicano ajuda a explicar a diversidade de zonas climáticas. O facto de estar em curso uma fase do El Niño contribui também para o contraste.
Boas perspectivas ao nível da prevenção
Nem tudo corre mal. Há iniciativas e investimentos encorajadores nalguns meios de prevenção de desastres naturais e a experiência mais recente foi a instalação, em Abril, de um radar meteorológico na Cidade da Beira, centro do país, que faz parte de um projecto de aquisição de mais seis radares pelo Governo em parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). O equipamento permite melhorar o acompanhamento das condições atmosféricas e, em caso de aproximação de um ciclone, consegue cobrir um raio de acção de 400 quilómetros, explicou à E&M o director-geral adjunto do INAM, Mussa Mustafa. Para toda aquela área passa a ser possível obter estimativas mais precisas de precipitação, intensidade dos ventos, bem como trajectória de ciclones. Este tipo de radar é precioso para difundir informação às comunidades e tomar medidas de prevenção. Por outro lado, o equipamento na Beira é usado para a monitorização de algumas das principais bacias hidrográficas no centro do país (Búzi, Púnguè e baixo Zambeze). Após a sua operacionalização, o radar já foi usado para o seguimento dos efeitos do ciclone Freddy, no início deste ano.
Ainda de acordo com Mussa Mustafa, tendo em conta os diversos eventos extremos que afectam o País e a sua extensão territorial, foi feito um levantamento sobre o número de radares necessários para se alcançar um sistema de aviso prévio completo – que inclui aplicações específicas para a aviação, marinha e turismo. Moçambique precisa de mais seis radares meteorológicos a longo prazo. “Neste momento estão em curso negociações com o BAD para se obter mais financiamento. Espera-se que até final de 2024 estejam adquiridos e instalados mais dois radares, um em Xai-Xai (sul) e o outro em Nacala-Porto (norte). Para estes dois radares, o custo é de seis milhões de dólares. De referir que este valor inclui a construção de infra-estruturas para acomodar os radares, formação de pessoal para manutenção e outros meios necessários para um bom funcionamento dos sistemas”, anunciou.
Estão em curso negociações com o BAD para se obter mais financiamento. Espera-se que até final de 2024 estejam instalados mais dois radares, um em Xai-Xai e o outro em Nacala-Porto
Ao nível da região da SADC, a África do Sul possui cerca de dez radares meteorológicos, Zimbabwe e Tanzânia têm quatro e o Botswana tem um. Os radares desses países não são necessariamente iguais ao de Moçambique. No âmbito da política da SADC sobre transportes, comunicações e meteorologia, pretende-se criar uma rede de radares para permitir maior aproveitamento e partilha de informação por parte de todos os países, no acompanhamento dos fenómenos meteorológicos, rumo ao chamado Aviso Prévio para Todos, até 2027.
Mais um sistema de aviso prévio
Recentemente, o ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos anunciou o estabelecimento do sistema de previsão e aviso prévio de cheias e secas para as bacias hidrográficas dos rios Limpopo, Save, Búzi e Pungué, que será sediado em Maputo. De acordo com Carlos Mesquita, todas as quatro comissões de bacias hidrográficas mencionadas – através das quais Moçambique se destaca no estabelecimento de sistemas de aviso prévio – possuem Planos de Acção Estratégicos, Protocolos de Partilha de Dados e Informações.
Em relação à Comissão do Curso de Água do Zambeze (ZAMCOM), o titular da pasta de Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos anunciou que possui agora um programa de investimento, o Programa de Desenvolvimento Integrado e Adaptação às Mudanças Climáticas na Bacia do Rio Zambeze, que abrange projectos em vários sectores relacionados com a água, incluindo agricultura, abastecimento à população, gestão do ambiente, bem como iniciativas de protecção e conservação dos recursos hídricos.
Alertas de insegurança alimentar para o início de 2024
De acordo com a rede de alerta precoce de insegurança alimentar Fews Net, financiada pela cooperação norte-americana (USAID) e usada pelas entidades de ajuda humanitária, a insegurança alimentar aguda, que coloca as famílias sob pressão (stress), deverá evidenciar-se nas zonas semiáridas remotas das regiões sul e centro. O padrão é comum a outros anos e a aridez deverá ser acelerada pelas consequências indirectas do El Niño. Enquanto parte do País enfrenta risco de ciclones, nestas áreas (sobretudo no interior de Gaza e Inhambane) prevalece a ameaça de escassez de água para a área semeada e indisponibilidade para trabalho agrícola. Como resultado, os primeiros meses do novo ano podem ser sinónimo de colheitas abaixo da média, preços elevados dos alimentos e acesso limitado ao mercado por parte das famílias com menos recursos.
Fonte: https://www.diarioeconomico.co.mz/2023/12/20/economia/temporada-com-menos-ciclones-mas-os-mesmos-riscos-estruturais/