Multinacionais Como Nestlé, Mondelez ou Unilever Ficaram na Rússia. “Business as Usual”?
Dois anos depois do início da guerra na Ucrânia, quase 1600 multinacionais – entre as quais a Nestlé, a Mondelez ou a Unilever – continuam a operar na Rússia, revela um estudo realizado por investigadores da Kyiv School of Economics (KSE), que indica que só 356 empresas internacionais, ou seja, menos de 10%, cortaram definitivamente laços com o país, abandonando o mercado.
Escrita Por: Administração |
Publicado: 2 years ago |
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Categoria: Economia
A conclusão foi extraída dos dados disponíveis no Leave Russia, um projecto desenvolvido por uma equipa de voluntários sob alçada daquele instituto ucraniano que, de forma regular, monitoriza as repercussões na economia russa da retirada de grandes multinacionais.
À luz do levantamento, a 4 de Fevereiro, só 356 empresas internacionais (9,6% do total de empresas constantes da base de dados do KSE, ou 27,8% das que geraram receitas na Rússia no ano de 2022) cessaram totalmente operações no país. Já, em sentido inverso, o KSE indica que 1594 das empresas monitorizadas (43% do total) continuam a operar sem quaisquer alterações no mercado russo.
a d v e r t i s e m e n t
O projecto “Leave Russia” – que, por ser ucraniano, é susceptível de levantar dúvidas sobre a sua imparcialidade – rastreia os passos de mais de 3700 empresas, detendo aquela que será a maior base de dados sobre o tema. Existe uma outra lista, idêntica, compilada pelo Chief Executive Leadership Institute (CELI), da Yale School of Management, mas existem diferenças nas metodologias adotapdas, desde logo no que toca à “retirada total”, o que resulta em conclusões distintas.
De acordo com o instituto norte-americano, “mais de mil empresas reduziram as operações na Rússia, mas algumas permanecem no país”. Esse universo inclui 547 empresas, das quais 217 “continuam a fazer ‘business as usual’; 175 estão a “ganhar tempo”, tendo suspendido planos de investimento e, ou desenvolvimento ou actividades de marketing, enquanto “mantêm um negócio relevante” e 155 estão a “reduzir algumas operações comerciais significativas, mas a dar seguimento a outras”.
Na escala de Yale, dividida em cinco categorias, entram ainda 504 empresas que “reduziram temporariamente toda ou quase toda a operação, mas deixaram as opções de retorno em aberto” e, por fim, 538 empresas que fizeram o clean break, ou seja, “interromperam por completo as ligações com a Rússia ou saíram em definitivo”.
Voltando à lista do instituto de Kiev, da lista de empresas que venderam as suas empresas e, ou activos ou parte dos seus negócios a parceiros locais, deixando o mercado, figuram gigantes como a Google ou o Spotify, a Maersk, Uber, Bosh, Siemens, o Starbucks, a Carlsberg, Heineken ou Tetra Park, assim como grupos do ramo automóvel, como a Ford, Renault, Vokswagen, Volvo ou a Nissan; da área da energia, caso das petrolíferas Shell e TotalEnergies, ou da eléctrica Eni; da indústria tabaqueira, como a British American Tobbaco (dona de marcas como Lucky Strike) e a Imperial Brands (dona da John Player Special), ou do sector do vestuário e da cosmética, como a Marks and Spencer, a Sephora ou a Wella, até à restauração – em que se incluem exemplos como a McDonald’s, a KFC ou a Kellog’s.
Além das retiradas efectivas, o KSE diz que há 1210 companhias internacionais (32,7% do total) que reduziram as operações e anunciaram a intenção de sair, enquanto 544 (14,7% do total) suspenderam novos investimentos e continuam “à espera”, segundo o KSE. No entanto, vão perder esse “estatuto” intermédio na lista do instituto – que anunciou que as vai “transferir”, no próximo mês, para o grupo das empresas estrangeiras que mantêm operações no mercado russo, considerando que os dois anos que volveram desde a invasão da Ucrânia por Moscovo lhes deram “tempo suficiente para a tomada de acções mais activas e decisivas”.
“Business as usual”?
Uma das multinacionais que mantém o “business as usual” na Rússia é a Mondelez. O CEO da fabricante de chocolates e bolachas, que detém marcas como a Milka e Toblerone ou Oreo e Triunfo, deixou, aliás, claro que não há qualquer pressão por parte dos accionistas para que abandone o país. “Não creio que [os investidores] se importem moralmente”, declarou Dirk Van de Put, em entrevista ao Financial Times (FT), publicada esta semana.
A Mondelez, que tem a Vanguard, BlackRock e Capital Group entre os principais accionistas, conta com 2700 funcionários na Rússia, espalhados por três fábricas, além de empregar, de forma indirecta, 10 mil agricultores. De acordo com o FT, a actividade da multinacional americana na Rússia, agora sob uma unidade independente, representou, no ano passado, 2,8% das suas receitas globais.
Quem também defendeu, de forma inequívoca, a sua posição de continuar na Rússia foi o grupo francês Bonduelle, descrito como líder mundial no segmento dos vegetais processados, em conservas e congelados. “A nossa posição não mudou. Não temos desejo de deixar a Rússia. Respeitamos as regras internacionais. Mantemos a nossa posição porque temos uma visão de longo prazo para o nosso negócio”, afirmou o CEO do grupo familiar francês, Xavier Unkovic, citado pelo Le Monde, em Outubro.
Logo um mês depois do estalar da guerra, a Bonduelle, presente naquele mercado há 25 anos, onde detém três fábricas que empregam mais de mil pessoas, anunciou não só a suspensão de novos projectos de investimento como garantiu que todos os lucros procedentes das vendas na Rússia seriam destinados à futura reconstrução da Ucrânia “não só em termos das suas infra-estruturas, mas também dos seus ecossistemas agrícolas”. Uma promessa que, segundo o “chairman” do grupo, Christophe Bonduelle, vai ser cumprida: “É de mau tom fazer lucros durante este período de conflito”.
Outro colosso da indústria alimentar que mantém operações na Rússia é a Nestlé, apesar de ter garantido que, desde o início da guerra na Ucrânia, reduziu “drasticamente” o portefólio na Rússia.
“Redireccionámos as nossas actividades para o fornecimento de bens alimentares essenciais e de primeira necessidade aos habitantes locais e suspendemos a maioria dos produtos do nosso portefólio pré-guerra no país. Também cessámos as importações e exportações não essenciais para a Rússia”, indicou a gigante suíça, dona de marcas como Cerelac, Nesquik, Kit Kat, Maggi, Nescafe ou Nestea, dando conta que, além disso, interrompeu a publicidade e suspendeu o investimento de capital no país.
“As nossas operações na Rússia continuarão a concentrar-se em fornecer bens alimentares essenciais e de primeira necessidade”, reforçou a Nestlé que, segundo a Bloomberg, detém seis fábricas no país, com sete mil trabalhadores ao serviço.
Essa garantia não impediu, no entanto, a sua entrada na lista de “patrocinadores internacionais da guerra”, elaborada pela Agência de Prevenção da Corrupção da Ucrânia, da qual fazem também parte a Mondelez, a Bonduelle ou a Unilever.
Depois da invasão da Ucrânia, a Unilever, proprietária de marcas como Dove, Olá, Knorr, Hellmann’s Cif, Lipton ou Axe, cessou todas as importações e exportações de e para a Rússia, transferências de capital e até gastos com publicidade no país, mas continuava a fornecer produtos do dia-a-dia, alimentares e de cuidados de higiene, “made in Rússia” ao povo daquele país. “Compreendemos os apelos para a Unilever deixar a Rússia. Também queremos deixar claro que não estamos a tentar proteger ou a gerir os nossos negócios na Rússia. No entanto, para empresas como a Unilever, que têm uma presença significativa no país, a saída não é simples”, reconhecia, um ano depois, em comunicado.
Na mesma nota, em Fevereiro de 2023, a Unilever elencava “três grandes opções” relativamente ao futuro do negócio na Rússia, onde conta com quatro fábricas e emprega perto de três mil pessoas. A primeira seria tentar fechar a actividade, no entanto, “é claro que se abandonássemos os nossos negócios e marcas no país, eles seriam apropriados – e depois operados – pelo Estado russo. Além disso, não consideramos correcto abandonar o nosso povo na Rússia”. A segunda opção passaria por vender o negócio, mas, pelo menos até há um ano, a gigante anglo-holandesa dava conta de que “não tinha sido capaz de encontrar uma solução que impeça o Estado russo de potencialmente daí retirar maiores benefícios” e passível de “salvaguardar as pessoas” que trabalham para o grupo. Já a terceira seria permitir que o negócio prosseguisse com as restrições postas em marcha um mês depois da guerra.
Não obstante, admitia, “nenhuma destas opções é desejável”. “No entanto, acreditamos que a terceira continua a ser a melhor opção, tanto para evitar o risco de o nosso negócio acabar nas mãos do Estado russo, directa ou indirectamente, como para ajudar a proteger o nosso povo”, mas “é claro que continuaremos a manter esta posição sob estreita análise”, concluia a Unilever na mesma nota.
Entretanto, a Unilever mudou de CEO. Hein Schumacher prometeu olhar com “olhos novos” para a decisão do grupo de manter a operação na Rússia, na sequência de uma carta enviada por um soldado ucraniano ferido na guerra, mas aparentemente nada mudou relativamente à posição adoptada pelo seu antecessor, Alan Jope. E, recentemente, após ter sido tornado público que pagou 3,8 mil milhões de rublos (37,8 milhões de euros ao câmbito actual) em impostos na Rússia em 2022, tem sido pressionada a ser transparente a esse respeito.
Com efeito, na entrevista recente ao FT, e em resposta às críticas, o CEO da Mondelez deixava no ar a possibilidade de as empresas que se retiraram da Rússia e deixaram os seus ativos a “amigos” de Putin estarem provavelmente a contribuir mais para os cofres da guerra do presidente russo do que os impostos pagos pelas que optaram por permanecer no país: “Questiono-me sobre o que aconteceu às empresas que foram vendidas: Quem as comprou e o que estão a fazer com o dinheiro que essas empresas geram? Foram todas para amigos de Putin. Pode apostar que o dinheiro que geram vai para a guerra e é muito mais elevado do que os impostos que pagamos”.
As implicações de uma retirada
Da lista de multinacionais elencadas como “patrocinadoras da guerra” por Kiev fazem também parte a francesa Leroy Merlin, que integra o grupo Adeo, que anunciou há um ano que pretendia terminar a sua presença de 18 anos na Rússia, o seu maior mercado externo, onde tinha 113 lojas que contribuiam com perto de 20% para as receitas globais da empresa de materiais de bricolage e construção.
O grupo Adeo afirmou que iria transferir o controlo da Leroy Merlin para a gestão local na Rússia, onde segundo a RFI, figurava entre os maiores empregadores estrangeiros, com 45 mil pessoas ao serviço, mas advertia que essa transação estava sujeita à aprovação das autoridades russas.
Em Dezembro, a imprensa russa deu conta da venda à subsidiária Leroy Merlin Vostok e que esta tinha sido adquirida, de seguida, por uma sociedade dos Emirados Árabes Unidos.
Já a também francesa Danone – que, tal como a Carlsberg, viu os seus activos na Rússia tomados pelas autoridades russas no verão passado – anunciou que planeia vender o seu negócio na Rússia a um responsável por essa “gestão” ligado ao sobrinho do homem forte da Chechénia, Ramzan Kadyrov, um dos aliados mais próximos de Putin que, aliás, se terá referido a si próprio como “soldado” do Presidente russo.
A também francesa Auchan, por seu turno, que mantém igualmente as operações na Rússia, onde conta com mais de 200 lojas e 30 mil funcionários, declarou, logo após o eclodir do conflito, que “sair seria concebível do ponto de vista económico, mas não do ponto de vista humano”. “É fácil criticarem-nos, mas estamos lá e agimos pela população civil”, afirmou então o CEO da Auchan Retail International, Yves Claude, enfatizando, porém, que o gigante do retalho suspendeu os seus investimentos no país e que a sua subsidiária operava de forma “autónoma”. E, como outros grupos, argumentou que a retirada iria expor os responsáveis a processos judiciais e ajudaria o capital russo, uma decisão, por isso, “contraproducente”.
A invasão russa da Ucrânia levou várias empresas ocidentais a quererem deixar a Rússia, mas regras do país estão a dificultar o processo, obrigando as empresas a vender os activos a preços mais baixos. Segundo avançou, em Agosto, a Reuters, Moscovo estava a exigir então um desconto de 50% nos negócios feitos por empresas estrangeiras e uma contribuição de pelo menos 10% do preço avaliado. E, em alguns casos, adiantaram fontes à mesma agência, estavam ainda a ser reclamadas contrapartidas adicionais. A Heineken, por exemplo, comunicou, nessa altura, que vendeu as operações no país ao Arnest Group por apenas um euro, assumindo perdas de 300 milhões de euros.
Já a McDonald’s avançou com a venda de todos os restaurantes na Rússia em 2022, pondo fim a uma presença de mais de três décadas, com a saída definitiva estimada numa perda de 1,2 mil a 1,4 mil milhões de dólares.
A maior cadeia de restauração do mundo, que se estreou em 1990 no país já nos últimos momentos da União Soviética, com a abertura de um restaurante na Praça Pushkin, no centro de Moscovo, vendeu os 850 restaurantes, que empregavam 62 mil trabalhadores, ao multimilionário russo Alexander Govor, que já tinha 25 restaurantes da cadeia de fast food em regime de “franchise” na Sibéria desde 2015. O valor do negócio não foi divulgado, sendo que, segundo a autoridade russa que aprovou a venda, a McDonald’s mantém-se no direito de recomprar os restaurantes num período de 15 anos.
Segundo o banco central russo, entre Março de 2022 e Março de 2023, foram vendidos por parte de empresas estrangeiras cerca de 200 activos, dos quais 20% valiam mais de 100 milhões de dólares.
Fonte: Jornal de Negócios